OITI

Nome científico: Licania Tomentosa
Família: Chrysobalanaceae | Origem: Brasil
Autora: MARIA CECÍLIA FAGUNDES
22 anos | Montes Claros - MG
eu acho que agora me sinto pronta. antes eu sabia que era muito fresca e verde pra isso, era como uma árvore jovem que propela sua gema apical em direção aos céus, em uma corrida desesperada por ar, e vento, e sol, e estrelas, em um movimento ascendente que busca se distanciar da mediocridade das origens da terra, da imobilidade da semente que um dia se plantou ali como que por acaso, semente daninha que, se não tivesse sido lançada, teria tornado a história muito menos dolorosa em primeiro lugar; a subida aos céus, um choro, uma prece, vergando, tremendo, quase não vingando, despontando folhas finas, e pálidas, e inseguras contra as intempéries e impropérios. os cortes fazendo jorrar seiva nova e insossa, porém que, se olhada mais de perto, analisada em microscópio e provada em finas gotas sobre a língua, poderia revelar um prelúdio de gosto ainda não identificado, sabor anunciador potencial – espécime não catalogada. seriam os nutrientes suficientes? pergunto-me, jardineira de mim mesma, sugando tudo com energia semi-inabalável, seiva bruta subindo por entre minhas raízes famintas, e súbito pode-se enxergar minhas folhas como bandeiras tremulando em mastros, o pé direito alto como uma casa bem arquitetada, sem saber como, como assim foi suficiente? que bom que foi suficiente! e assim completa-se o primeiro ciclo, a altura satisfatória, o alívio do contato com ar, e vento, e sol, e estrelas. daqui de cima consigo enxergar muitas coisas, e é uma dor e uma alegria, e ah, como dói finalmente entender que a minha sede é schopenhauriana, ela vai continuar a me assombrar, ela é implacável e agora quer crescimento em espessura, quer que meu tronco se acomode, alargue, endureça, casca grossa e cerne circular de lenho estival e primaveril; a respiração de alívio dá lugar a uma tomada de fôlego antes de renovar meu choro e minha prece, rachaduras em mim, exterior e interior se confundindo e intercambiando, a sede de mais e mais, agora me sinto pronta pra mais, fincar raízes de vez, jorrar resina e âmbar dourados contra a pele de quem faz contato, meus galhos agora espessos e grumosos de gemas laterais que se multiplicam pouco a pouco em uma miríade de dedos ávidos para tocarem todas as direções, existem outras árvores por perto, acho que consigo senti-las e quero tocá-las, sabia que a ciência diz que árvores se comunicam e vivem em comunidade? você acha que consigo tocá-las?



Comentários